Lamento dizer, meu filho, mas não sou nenhum desses.
Não sou, por exemplo, o Superman. Não consigo sair por aí voando, embora muitas vezes tenha vontade de fazê-lo; tenho de me mover no atrapalhado trânsito desta cidade num modesto Gol, com a esperança de não chamar a atenção dos assaltantes nem de ficar na rua com o pneu furado. Também não tenho, como o Superman, a visão de Raio-X; mal consigo ler, com muita dificuldade e incredulidade, as notícias que aparecem diariamente nos jornais e que nos falam de um mundo convulsionado e de um país perplexo.
Não sou o Homem Invisível. Não consigo passar despercebido; tenho que ocupar o meu lugar na sociedade, goste dele ou não.
Não sou o He-Man. Não tenho a Força; pelo menos não aquela força. Tenho uma pequena força, o suficiente para garantir o pão nosso de cada dia, e mesmo alguma manteiga, o que não é pouco, neste país em que muita gente morre de fome.
Não sou o Rambo; não tenho aquela formidável musculatura, nem as armas incríveis, nem o feroz ódio contra os inimigos (aliás, quem são os inimigos?). Não sou o Tio Patinhas, não sou um Transformer, não sou o Príncipe Valente. Não sou o Rei Arthur, nem Nem Merlin, o Mago, nem Fred Astaire. O que sou então?
Sou o que são todos os pais. Homens absolutamente comuns, a quem um filho transforma de repente (porque os pais são criados pelos filhos, assim como os filhos são criados pelos pais: a criança é o pai do homem). Homens comuns que levantam de manhã e vão trabalhar. Homens que se angustiam com as prestações a pagar, com os preços do supermercado, com as coisas que estão sempre estragando em casa. Homens que de vez em quando jogam futebol, que às vezes fazem churrasco, que ocasionalmente vão a um teatro ou a um concerto. Destes homens é que são feitos os pais.
Quando os filhos precisam, estes homens se transformam. Se o filho está doente, se o filho está com fome, se o filho precisa de roupa _ estes homens adquirem a força do He-Man, a velocidade do Superman, os poderes mágicos de Merlin. Mas a verdade é que isto não dura sempre, e também nem sempre resolve. A inflação, por exemplo, nocauteia qualquer pai.
Não, filhos, não somos os seres poderosos que vocês gostariam que fôssemos. Mas somos os pais de vocês, que um dia serão pais como nós. Os heróis são eternos. os pais não. E é nisso que está a sua força.
Moacyr Scliar
Texto lindo do Moacyr Scliar, autor brilhante que infelizmente nos deixou em fevereiro. Ontem corrigi a ficha "Qual destes é seu pai?" de um aluno. Não pensei muito pra chegar à conclusão de que trata-se de uma dessas obras universais, que servem de aprendizado pra qualquer um que leia. Maravilhoso.
É um daqueles textos, vô, que é igual Aracy de Almeida: não resta a menor dúvida.
Pai, amanhã é o seu dia. Resolvi postar agora, porque se tem uma coisa na vida que aprendi direitinho e que resolvi seguir da melhor forma, foi aquele clichê do carpe diem.
VOCÊ, pai, é o meu grande herói, é aquele que me inspira, um dos maiores responsáveis por todas as minhas conquistas. Se me levanto para trabalhar todos os dias, se, ainda com sono, resolvo não faltar às aulas da faculdade (insisto em assistir mesmo àquelas que são mais chatas!) e faço um esforço grande pra economizar uns trocados (recomendação sua: "filha, se chegar com mais um batom ou qualquer maquiagem, vai precisar pedir ao gerente do banco que o seguro do seu Ford Ka seja pago em cosméticos"), é porque você me criou assim, explicando que responsabilidade era fundamental. Você me fez cidadã direita, honesta, verdadeira. Se não tenho medo de dizer o que penso... é por sua culpa. Agora, pai, não adianta vir me chamar de bocuda e dizer que sou muito nervosa. Hum.
Você foi e continua sendo meu He-man, meu Superman, meu Merlin, etc. Mas eu te chamo diferente. Você é meu "Nenis", e o SuperVic da mãe.
Vicente Arraes Neto, saiba de uma coisa: EU TE AMO MUITO.
Feliz dia dos pais! Feliz vida inteira!!!

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